Minha vida on-line – sem todas as métricas
A Mídia Social é um carrossel da morte, e no ano novo decidi sair dela. Política americana e as novas histórias continuaram sendo guiadas pelos tweets e retweets do @realDonaldTrump. A foto de um ovo superou 30 milhões de likes no Instagram. Crianças que comeram detergente por seus followers. A frase “último estágio do capitalismo” apareceu em todos os lugares. Então eu me livrei. Não das contas das redes sociais, mas de seu algoritmo criado para me achar. Curtidas, retweets, visualizações, seguidores, inscritos e por aí vai. A métrica da magia das palavras, fotos e vídeos – o que é conhecido, fofuras, conteúdo – tudo feito para ser moeda de troca.
Eu instalei várias extensões em meu browser que prometeram deixar o conteúdo intacto e eliminar negrito, sexy, onipresente, números que deixam o meu feed todo fora de ordem e sempre desatualizado.
Meu guia para a “desenumeração” foi Benjamin Grosser, um artista e assistente de professor de Novas Mídias, da Universidade de Illinois. Grosser criou pequenos UX Hacks para a libertação do Facebook, Twitter e Instagram da hegemonia das notificações (amei etc.) e de seus sedentos seguidores.
Instalando uma de suas extensões, você loga e verá que tudo está normal, mas sem a impressões, apenas o real e cru feed de notificações.
Grosser fez seu primeiro “Demetrificador” em 2012, admitindo a hipótese que este sutil ajuste de design no Facebook poderia mudar profundamente a experiência do usuário na plataforma. A gangorra de conteúdo e de reações seria menor, assim como a insaciável procura por interações.
“Nós nos tornamos dependentes dos números, então, nós deixamos eles criarem nosso padrão de ser” – diz Grosser. A remoção total talvez nos dê a sensação de ter encontrado a Shangri-la digital. Ou pelo menos um pedaço livre e saudável, sustentável para a vida on-line.
Eu precisava disso. Quando eu abri o Twitter, não foi para dar uma olhada nas notícias, mas para verificar quantos retweets minhas migalhas de pensamento haviam acumulado durante a noite. Me senti ansioso quando vi meu pífio desempenho de alcance no Instagram. Demetrificador prometeu um novo caminho. Eu havia me transformado numa pessoa não quantificada, um Instagramer-Facebooker-Twitter ser além das métricas. Eu instalei nestas redes sociais e aguardei o resultado.
Levou apenas 1 segundo. Os rios de twetts e postagens ainda apareciam, arrastando além da usual a poluição cibernética. Fiz então uma postagem no Twitter com um link para uma história que havia escrito, depois dei um refresh na página e aguardei tranquilamente o “tapinha nas costas” digital que nunca chegou! Quando passei mais uma vez meu cursor, aguardando a dose de dopamina das reações, havia ali apenas o vazio. (Você ainda pode ver se tem uma notificação, mas não quantas). O número de retweets foi embora. Comentários nem se fala, zero. Por quanto tempo meu tweet ficou desprotegido na selva, possivelmente se definhando por um mero engajamento? Eu não poderia falar porque a notificação de horário também havia sumido.
Não que eu, imediatamente, parei de procurar por aprovação, por ser visto. Em busca de um novo seguidor no Twitter, eu faço o dever de casa e sempre quis ter mais seguidores, só que agora ninguém me segue mais. Eu fico imaginado quantas pessoas gostaram do meu último post no Instagram ou se eu fui o primeiro ou centésimo a retuitar uma piada. Com o Demetrificador funcionando eu encontrei meu cursor circulando em espaços vazios, aguardando a próxima linha de raciocínio de para seguir. Um vazio criado quando, aparentemente, se depende destes números.
Grosser disse assim: “a consciência elevada de quão rapidamente vamos de encontro às métricas e algoritmos é o maior possível efeito de resultados reais. Nós criamos regras para nós mesmos sobre como agir em um sistema baseado em que os números dizem, mas nó não percebemos que estamos fazendo isso”.
A etiqueta virtual é dita pelos números. Uma postagem com baixa performance leva a sua consciência a apagá-la. Nós raramente comentamos sobre algo que tenha mais de 2 dias de idade, só se for um stalker proposital. Nossas próprias postagens são definidas por números sedentos ao longo de sua vida. Nós criamos apenas o que a máquina nos diz a fazer: o inflamatório, o incendiário, o infantil.
Eu senti um tipo de mágica do esquecimento em não saber quantas pessoas curtiram um post recente. A liberdade incentivou um senso de otimismo. KKKK, eu pensei, isso provavelmente foi um vírus! A internet se tornou imprecisa, imensurável. Assim sendo, passível de interpretação. Eu poderia pensar por mim como um troféu que não entrou para a minha coleção. Eu comecei a ler posts com mais cuidado, em seus próprios termos, sem cores em um ranqueamento preciso. Eu deixei mais comentários. Eu enviei menos twetts.
Eu também fiquei ridiculamente entediado. Eu continuei a perseguir o post com maior impressões, mas histericamente não consegui. Memes e desafios da Internet faziam menos sentido sem suas métricas reveladoras. Eu não poderia mais bisbilhotar o espetáculo de absurdos dos tweets do Kayne West que costumam receber centenas de milhares de likes. Mas eu estava acima de tudo isso – disse a mim mesmo.
Então eu tive uma recaída.
Depois de meses de bom comportamento, eu tuitei uma piada. Eu sabia que era decente, ou ao menos feita para a Internet. Então eu abri o Twitter em um outro browser sem a extensão instalada e encontrei milhares de frescos e gloriosos likes esperando por mim. Como eu ficar longe disso e perdê-los! Dei um refresh na página e aguardei os números aumentarem. Demetrificador, eu, instantaneamente, concluo: foi feito para Losers.
Em um último suspiro de salvação, liguei para Grosser. Sua última criação: Safebook, remove todo o conteúdo do Facebook – imagens, textos, reações, nomes e tudo mais. Eu instalei-o, não ajudou em nada. Uma versão simplista e básica para usar, a interface profundamente instalada em nossos cérebros. O que poderia acontecer se eu fizesse uma postagem? Eu digitei um pensamento aleatório e cliquei no “pelado” botão de compartilhar. A postagem simplesmente desapareceu como éter. Bolas. Acho que prefiro simplesmente comer Sabão também.
Matéria veiculada na Revista Wired de Março e escrita por Arielle Pardes (@pardesoteric). Para ver a matéria original clique aqui.
Tradução: Daniel Santos
